Primeiras Impressões

Primeiras Impressões — O nascimento da cultura impressa e sua influência na criação da imagem do Brasil
Galeria Piccola I

Na abertura de um folheto de 1505 reproduzindo Mundus novus, carta que acreditava-se ter sido escrita pelo navegador florentino Américo Vespúcio, está impressa a primeira representação visual conhecida do Brasil. Uma xilogravura para ilustrar “o povo e a ilha descobertos pelo Rei Cristão de Portugal ou por seus súditos”. Na imagem, com exceção dos bebês de colo e do pobre coitado dependurado “como toucinho”, todos os outros vestem uma saia de penas, indumentária inexistente em qualquer descrição dos habitantes originais da costa brasileira, mas que, curiosamente, fixou-se na iconografia do nativo. Era apenas o começo de uma longa série de distorções que terminaram por criar a imagem do Brasil em seus primeiros séculos.

Esses desvios são fruto de um complexo amálgama de indústria, arte e códigos culturais vigentes, misturando romances de cavalaria, bestiários medievais, tensões religiosas, interesses econômicos e, principalmente, os parâmetros produtivos da então incipiente indústria do livro, cuja consolidação deu-se quase que simultaneamente à chegada dos europeus à América e cuja prática editorial era recheada por atitudes hoje impensáveis — como rerranjar pessoas numa ilustração ou repetir a mesma imagem em textos completamente diferentes. Não à toa, portanto, o primeiro livro publicado sobre o Brasil, o relato do alemão Hans Staden, surgiu em diferentes edições ilustrado por elefantes, Jesus cruficado ou turcos otomanos.

A exposição Primeiras Impressões — O nascimento da cultura impressa e sua influência na criação da imagem do Brasil, concebida por Gustavo Piqueira, debruça-se sobre as razões que levaram à produção de sínteses gráficas hoje absurdas mas que, à época, se apresentavam perfeitamente lógicas. Emoldurando o conteúdo da mostra,  grandes ampliações do volume três das Grandes Viagens, a coleção de relatos sobre o Novo Mundo publicada pelo belga Theodor de Bry que, ao reler as xilogravuras originais do livro da Hans Staden em exuberantes e explícitas gravuras em cobre, cristalizou a imagem do Brasil em seu primeiro século após o desembarque de Cabral. Imagem esta que, de certa maneira, ainda perdura entre nós.

 

Concepção e textos
Gustavo Piqueira

Projeto expográfico e produção
Casa Rex

Montagem
Central Park